segunda-feira, 10 de maio de 2010

Desconstrução de mim mesmo

Quando eu vi o café quente pousar sobre a xícara, Cheguei a pensar que eu era esta xícara. Perguntei-me então: "Será que virão duas colheres de açúcar, ou só uma? Ou será que este café ficará amargo mesmo?".
O café, apesar de quente, tinha um gosto de café adormecido, requentado. Foi misturado a um pouco mais de uma colher de açúcar, levado a boca e rapidamente engolido. Naquele momento, percebi que eu não era a xícara.
Quando a faca tocou a carne e a cortou, fazendo o sangue escorrer, pensei eu ser a faca, aquela lâmina afiada que intervia sobre a pele e modificava ali aquela realidade de existência, de segurança e conforto. No entanto, quando o sangue espirrou sobre a mão, percebi que eu não era aquela faca. Eu não era a faca. Talvez eu fosse a mão que esfaqueava, mas isso eu não sabia, pois ela estava infurecida de uma forma que eu jamais me ví (se é que eu já me vi de alguma outra forma).
Era manhã na cidade, por volta das oito horas. Muitos, mas muitos mesmo, muitos motores surgiam e rugiam como leões famintos de carne e de sangue. Estes rugidos até pareciam os rugidos daqueles gárgolas que viviam nas copas dos prédios, deliciando-se da visão dolorosa daqueles que rastejavam sobre a calçada quente naquela manhã ensolarada. Pensei eu então ser aquele pacote de salgadinho que estava jogado na guia. O vento soprou e ele então saiu voando, voando por entre a poeira, a fumaça quente e o vapor das transpirações daqueles seres que por ali passavam. Mas quando vi que aquele pacote de salgadinho não teria um paradeiro, vagaria sem rumo por séculos e séculos, atrapalhando e poluindo e decorando aquela paisagem de mundo, eu percebi que também não era o pacote de salgadinho.

sexta-feira, 9 de abril de 2010



Quem é esse ser que habita debaixo da minha cama?
Quem é esse ser que se projeta na superfície do metal, do vidro, da água?
Quem é esse que contesta o que falo e o que faço?
Por que chamar de Eu alguém que não conheço, não quer ser conhecido e prefiro não conhecer?
Quem é esse ser mutável, que ao buscar transformar-se, transforma também o que há à sua volta?
Quem é esse que rejeita qualquer identidade e qualquer forma estática e determinada?
Quem é esse que morre e renasce ao perceber sua própria existência?
Quem é esse ser brando e eufórico, volátil como o Éter?
Ora sou, ora não sou.
Ora estou, ora não estou.
Como uma supernova originando o Universo,
Como um buraco negro transformando Tudo em Nada,
Como a matéria que habita o vácuo,
Como o vácuo entre as matérias.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Por trás dos óculos,
Todos os olhos são nus.

Por dentro dos sapatos,
Todos os pés são descalços.

Por baixo do cabelo,
Toda cabeça é careca.

Por baixo da roupa,
Todo mundo é pelado.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ontem à noite eu vi Deus.
Ele era um mosquito pequenino pousado num fio que pendurava um amuleto no meu quarto.
Cantei para ele e, em retribuição, ele me mostrou o quão grande e infinito é.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Palavra e Perfeição

Sim, tenho mania de poeta.
Mania de querer escrever
Muitas coisas das que sinto.

Um dia desses eu falei
Que as palavras não são coisas
E de fato não as são.

Como poderia eu escrever o Sol
Com todo o seu tamanho,
Sua energia, seu calor?

Como poderia eu escrever uma flor
Com seu perfume,
Sua forma, Sua cor?

Como poderia eu escrever o amor?
Pobre de mim e da minha mente
Que abriga essa mania!

Mas sinto coisas
E quero expressá-las.

Gostaria de expressar com poesia
A perfeição da natureza,
Sua paz, sua liberdade.

Gostaria de expressar em poesia
Cada traço do teu sorriso,
Cada fio do teu cabelo,
Cada pinta na tua pele.

Mas as palavras só representam,
Não são.

Pois a perfeição está na natureza,
Nas coisas, nas pessoas,
Nos sorrisos, nos fios de cabelo,
Nas pintas da pele
E não nas palavras.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Naquele dia, acordou com uma pancada nas costas. Olhou e apalpou para saber o que o atingira, mas nada constatou...
Levantou-se, escovou os dentes, tomou café, tocou violão e fez faxina...
Encontrou-se com seu amor, abraçou, beijou, riu e despediu-se como quem não quer deixar partir...
Olhou as árvores, as flores e as pessoas. Sorriu leve e/ou timidamente ao aceno das crianças no transporte escolar...
A chuva passara e o céu limpava-se aos poucos naquele fim de tarde. Olhou o horizonte e viu-o tingir-se de dourado...
Lembrou-se dos amigos mais próximos e dos menos próximos também...
Lembrou-se da semente que plantou e que germinou e das sementes que queria plantar...
Lembrou-se de sua família e das casas nas quais morou...
Lembrou-se que viveu...
Sentou-se e (não)chorou...
E despediu-se de tudo, até de si mesmo, pois sabia, de alguma forma, qual seria o seu "Fim"...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Um dia desses, ganhei da minha amada uma semente que ela encontrou no chão enquanto caminhávamos. Examinei a semente e pensei em guardá-la na minha carteira para dar sorte, pensei fazer um chaveiro com ela, pensei em fazer um colar, mas findei guardando-a no bolso.
Depois recolhido em meu quarto, examinei novamente a semente e tive uma idéia: "E se eu plantá-la em algum lugar?". Foi a melhor idéia que já tive a respeito.
Agora fico eu imaginando onde posso plantá-la, como vou cuidar dela enquanto germina, enquanto cresce... Imagino qual tamanho ela vai atingir em sua fase adulta, quantos animais se abrigarão nela, quantos se alimentarão dela, se ela dará frutos, se florescerá, quantos anos viverá, como será o mundo quando ela estiver velha, se as pessoas a respeitarão...
Pode ser que que ela não dê flores, pode ser que não dê frutos, pode ser que não abrigue animais, pode ser que as pessoas não a respeitem, pode ser que ela não chegue a crescer, pode ser que ela nem brote...
Pode ser até que eu nem chegue a plantá-la, mas ainda assim, valeu a pena as esperanças que essa linda árvore em forma de semente me trouxe.

sábado, 25 de julho de 2009

Cataclísmica e curiosa viagem
Uma vez escrita, não se apaga.
Para se alcançar a paz,
Será mesmo necessária a guerra?

O velho roga pelo novo
A ampulheta logo será virada
Os lugares mudarão
O vento mudará de direção.

Se a viagem é longa ou curta, eu não sei
Aonde chegarei, eu não sei.

Para ser leve como o ar, a água se enfurece.
Por que eu seria diferente?

Nem triste, nem alegre.
Nem bom, nem mau.
Simplesmente Catastrófico.